Entrevistas
22/04/2014 - 00h34

Mick Wall fala sobre história e futuro do AC/DC, cuja biografia acaba de sair no Brasil


O crepúsculo de uma das maiores bandas de rock da História, a australiana AC/DC, formada em 1973 pelos irmãos escoceses Malcolm e Angus Young, acentuou-se esta semana com um anúncio no seu site: "Após 40 anos de vida dedicados ao AC/DC, o guitarrista e membro fundador Malcolm Young vai dar um tempo do grupo devido a um problema de saúde. Malcolm gostaria de agradecer às ferrenhas legiões de fãs pelo mundo por seu amor sem-fim e apoio. Por conta disso, o AC/DC pede que Malcolm e a privacidade de sua família sejam respeitados durante esse tempo. A banda vai continuar a fazer música".
 
Em uma espécie de sincronia astral, a Globo Livros está lançando essa semana no Brasil o volume AC/DC – A Biografia, do jornalista britânico Mick Wall, que falou ao Estado sobre a devassa que fez na saga dos irmãos Young. Wall é polêmico: ele detesta o atual vocalista, Brian Johnson, e diz que o grupo já deveria ter parado há 30 anos. Sobre Malcolm Young, diz: "Meu livro deixa claro que sempre foi um homem grosseiro e arrogante. Quase destruiu a carreira da banda nos anos 1980".
 
O biógrafo do AC/DC, Mick Wall, é autor também de biografias do Metallica, Black Sabbath e Led Zeppelin. Não é um sujeito que doure a pílula: ele mesmo conta no livro que já providenciou drogas, no final dos anos 1970, para abastecer rock stars como Black Sabbath e UFO.
 
AC/DC – A Biografia começa com a família Young, os pais e 8 filhos, imigrando da Escócia para a Austrália num programa chamado Viagem por Dez Libras. Pobreza, brigas, mulheres, influências, álcool, heroína. Está tudo lá, da origem do nome AC/DC (ideia da cunhada dos Young, Sandra, que viu o nome em sua máquina de costura; eles chegaram a pensar em The Night Hawks) até reanimações e surras de pais furiosos por sedução de filhas menores. Wall desmente a tese de que os Young tenham sido "roqueiros incultos", pois conheciam quase todo o espectro musical de sua época. Na verdade, a biografia parece mais centrada na figura do cantor Bon Scott, morto em 1980, cuja personalidade fascina o autor.
 
Você sustenta que o AC/DC deve considerar seriamente a aposentadoria. Diz que eles deveriam ter parado há 30 anos. Não acredita em veteranos no rock?
 
Mick Wall - Acredito muito em artistas mais velhos ainda fazendo boa música. Bob Dylan é um que me vem à mente. Metallica é outra banda mais antiga que encara riscos, como por exemplo o disco deles com Lou Reed, Lulu, que é uma obra-prima. Falando nele, Lou Reed, também foi outro artista que envelheceu fazendo maravilhosos manifestos musicais. Mas é muito raro no rock. Em vez disso, temos uma geração de rock clássico topando tudo por dinheiro, como os Stones, AC/DC e o resto. Nenhum deles fez um disco realmente interessante por décadas. É hora de alguém apontar que as novas roupas do imperador não são de verdade.
 
Você sabia que Malcolm Young tinha câncer? A banda divulgou um comunicado dizendo que ele vai se dedicar a cuidar da saúde, mas a banda vai seguir em frente. Você acredita nisso?
 
Mick Wall - Não sabia que ele tinha câncer. Isso é um fato? Alguns meses atrás me disseram que ele estava seriamente doente, mas não com câncer. Por que não continuar sem ele? Já fizeram isso nos anos 1980, quando Malcolm ficou um ano fora por causa do alcoolismo, e seu sobrinho Stevie Wright entrou. Ninguém notou no começo. Isso porque ninguém mais realmente olha muito atentamente o que o AC/DC faz. É como dizer às crianças que não existe papai-noel.
 
Defendendo que o AC/DC esteve em seu auge 30 anos atrás, você está condenando o cantor Brian Johnson ao ostracismo. Por que ele o desapontou tanto? Nunca foi bom, em sua opinião?
 
Mick Wall - Vi Bon Scott cantar muitas vezes, e também o conheci pessoalmente. Não sou desapontado com Brian Johnson, pessoalmente. Ele é muito bom no que faz, mas o que ele faz é nada comparado ao que Bon Scott fez. Bon fez alguns dos grandes álbuns do AC/DC. Brian fez um, Back in Black, no qual muito do que está lá foi composto por Bon.
 
Cobri o último show do AC/DC em São Paulo, em 2009. Um sujeito sozinho com uma guitarra seduzindo 70 mil pessoas por três minutos ou mais somente com seu instrumento não é algo fácil de se fazer, não concorda?
 
Mick Wall - Acho que é a coisa mais difícil, seduzir 70 mil com um solo de guitarra. As pessoas vão a esses grandes eventos com a coisa toda já planejada em suas cabeças, você tem de ser colossal ou eles terão perdido seu tempo e dinheiro. Muitos deles não podem ver direito o palco e são forçados a ver nos telões. É teatro, um espetáculo, com fogos de artifício. Mas musicalmente, não significa nada.
 
Você parece escolher bandas para biografar com certo senso historiográfico, mas seu texto é envolvente. Estilo é crucial para o historiador, em sua opinião?
 
Mick Wall - Estilo é importante no sentido de fazer aquela música e aquelas pessoas se tornarem vivas na página. Meu estilo se desenvolveu ao longo de 40 anos de jornalismo, de tentar construir meu próprio texto com ritmo, com luz e sombras e significado e também sexo e drogas, além de um alto senso de realidade e humor. E, claro, com uma grande tristeza, raiva e escuridão também. Por sorte, como escritor, minhas coisas parecem estar ficando melhores com a idade, e não sou mais forçado a escrever como fiz quando era um jovem repórter, do mesmo jeito que essas bandas velhas fazem hoje.
 
Muitos fãs em volta do mundo acreditam que o AC/DC é o "último dedo médio em riste mostrado para o establishment", como disse Steven Styler. Você acredita que eles são capazes de começar algum tipo de rebelião?
 
Mick Wall - Começar uma rebelião para quem? Para mim? Claro que não. Para algum garoto de 15 anos? Só se ele estiver ouvindo agora os discos do AC/DC que são tão velhos quanto o pai dele. AC/DC são zilionários, eles são o establishment. Eles são uma franquia. No que isso os torna antiestablishment?
 
Há um tipo de parábola cristã que começa e encerra seu livro, um tipo de profecia bíblica. É um elemento engraçado, mas parece coisa de tabloide. Você se sente bem usando esses recursos extremos para chamar atenção?
 
Mick Wall - Tabloides? Se esse é seu tipo de leitura, estou desapontado. Isso sou eu fazendo arte. Tentando abortar toda essa porcaria que tem sido escrita e dita sobre essa banda. Leia meu livro sobre o Led Zeppelin, Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra, e então me diga se eu me sinto confortável ou não usando isso que você chama de "recursos extremos". Por que eu não deveria? Não escrevo livros para bajular os fãs, não estou escrevendo para fazer as bandas felizes. Estou escrevendo para contar a verdade, uma commodity muito rara no negócio do rock. Não me importo sobre o que as bandas e os fãs vão pensar, eles não estão interessados na verdade. Mas há um monte de gente que está.


Jotabê Medeiros / O Estado de S. Paulo
 

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