Ciência
21/06/2018 - 09h50

Será que a ciência deve trazer de volta um rinoceronte?


Uma subespécie sem machos pode receber outra chance
 
Quando o último macho dos rinocerontes-brancos do norte morreu, em março, as pessoas lamentaram a iminência da extinção deste amado mamífero. Com o fim dos animais dessa subespécie no habitat selvagem e apenas duas fêmeas remanescentes em cativeiro, parecia que o desaparecimento do rinoceronte era mera questão de tempo.
 
Mas várias equipes de cientistas estão trabalhando para reverter essa situação. Um grupo, comandado pelos pesquisadores do Instituto de Pesquisa em Preservação do Zoológico de San Diego, na Califórnia, espera trazer o rinoceronte-branco do norte de volta à vida usando células preservadas. Num estudo publicado na Genome Research, eles sequenciaram o DNA dessas células e concluíram que elas parecem bastante promissoras para o reestabelecimento de uma população viável de rinocerontes-brancos do norte.
 
Com os avanços certos na reprodução assistida ou clonagem, pode haver uma segunda chance para esta “espécie única de rinoceronte”, disse Oliver Ryder, diretor de genética da preservação na San Diego Zoo Global.
 
Nem todos concordam que a capacidade de trazer de volta o rinoceronte-branco do norte significa que devamos fazê-lo. Os críticos questionam se o agito em torno da ressurreição de um criatura funcionalmente extinta pode desviar atenção e recursos de outros animais com mais chance de sobrevivência. Eles também apontam que os rinocerontes-brancos do norte eventualmente criados provavelmente permaneceriam em cativeiro, em vez de viver no habitat original do leste e centro da África, onde os caçadores ainda são uma grave ameaça.
 
No seu estudo, o Dr. Ryder e seus colegas se concentraram na possibilidade concreta de recuperar o rinoceronte-branco do norte a partir de células armazenadas no Zoológico Congelado, um grande acervo de amostras preservadas em criogenia no Zoológico de San Diego. Essas linhagens celulares representam oito rinocerontes-brancos do norte aparentemente sem parentesco, disse o Dr. Ryder.
 
Os pesquisadores sequenciaram esses genomas e os compararam aos genomas dos rinocerontes-brancos do sul, primos mais próximos da espécie do norte, que passaram por uma recuperação espetacular nos cem anos mais recentes sob proteção, embora a espécie continue ameaçada.
 
Eles confirmaram uma antiga hipótese dos cientistas segundo a qual os dois rinocerontes seriam subespécies, e não espécies distintas. Isso pode ajudar se um dia tentarmos usar os rinocerontes-brancos do sul como substitutos para a criação de embriões de rinocerontes-brancos do norte.
 
Os cientistas também descobriram diversidade genética suficiente nas amostras de rinoceronte-branco do norte, disse o Dr. Ryder. “Se tivéssemos que usar apenas o material do Zoológico Congelado, seríamos capazes de transformar aquelas células em animais.”
 
Mas Jason Gilchrist, ecologista da Universidade Edinburgh Napier, na Escócia, questionou a validade de trazer de volta à vida um animal que não pode retomar sua existência selvagem. “Enquanto ecologista, quero ver os ecossistemas selvagens funcionando o mais próximo do natural quanto possível", disse ele.
 
Joseph Bennett, pesquisador da preservação da Universidade Carleton, em Ontario, acredita que o rinoceronte-branco do norte é um bom candidato à ressurreição porque é grande a chance de sucesso se comparado a projetos mais ambiciosos como reverter a extinção dos mamutes ou do pombo-passageiro. Seria uma “excelente ‘notícia positiva’ para o público", disse ele.
 
Cathy Dean, diretora executiva da organização de caridade Save the Rhino, disse desejar que outros rinocerontes, como as espécies de Sumatra, Java e os rinocerontes-negros (todas em perigo crítico) recebam tanta atenção quanto o rinoceronte-branco do norte.
 
O Dr. Ryder disse que os esforços de sua equipe não substituem iniciativas de preservação dos animais silvestres, mas se somam a esses esforços, acrescentando que “estamos vendo a extinção de espécies apesar do compromisso global” com a sua proteção.
 
Diante disso, disse ele, proporcionar “mais alternativas para a existência de espécies no futuro é um objetivo digno".
 
 
The New York Times
 

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