Culinária e Gastronomia
27/06/2018 - 05h45

Laboratório de doping da Rússia vira bar descolado em Sochi


Estabelecimento tem drinques que fazem alusão ao escândalo envolvendo substâncias ilegais
 
Anos depois de se envolverem no maior escândalo de doping na história, os russos conseguiram de alguma forma transformar o vexame em lucro, ou ao menos em diversão. No mesmo prédio em Sochi onde centenas de amostras de urina de atletas do país foram adulteradas na Olimpíada de Inverno de 2014 para disfarçar a utilização de substâncias proibidas, agora funciona um moderno restaurante onde os drinques principais fazem alusão ao doping.
 
O visitante pode se sentar no elegante bar e pedir um drinque combinado de absinto e energético. O nome é Meldonium, substância que causou a suspensão da famosa tenista russa Maria Sharapova. Quem tem paladar mais forte pode encarar a mistura de tequila com molho de pimenta. O coquetel no cardápio aparece com Amostra B, nome dado à coleta extra de urina dos atletas utilizada como contraprova em exames.
 
O restaurante, batizado de La Punto, fica dentro do Parque Olímpico montado para os Jogos de Inverno, em 2014. O local está a poucos minutos de caminhada do estádio Fisht, uma das sedes da Copa do Mundo, e recebe nesses dias centenas de turistas. O ambiente moderno do estabelecimento mistura estilos e épocas, com características como estrutura aparente, street art, mobiliário vintage e mescla de cores. Um local aconchegante que contrasta com o passado obscuro do doping.
 
Anos atrás, o endereço servia para o químico russo Grigory Rodchenkov – cuja história foi contada no documentário Ícaro, no Netflix – manipular amostras de urina de atletas, com o intuito de disfarçar a utilização de substâncias que aumentavam o desempenho físico.
 
O escândalo esportivo das adulterações custaram ao país-sede da Copa o banimento de competições esportivas e desconfiança que paira sobre várias modalidades. Nesta semana, por exemplo, o técnico da seleção russa, Stanislav Cherchesov, se irritou com uma pergunta sobre se o bom desempenho da equipe na Copa teria ligação com o doping no país, esquema que foi acobertado pelo governo. “Isso não tem relação. Talvez fosse melhor uma pergunta sobre o jogo”, comentou.
 
O chamado ‘gastro pub’ tem garçons vestidos com camisas e calções oficiais das seleções da Copa. O cardápio tem cozinha internacional e frutos do mar com especialidades. A decoração do espaço é moderna, com pouca iluminação à noite, e quadros com imagens de Mané Garrincha, Maradona e Che Guevara nas paredes. Há um pebolim na entrada, onde o turistas se divertem enquanto esperam mais um Meldonium ser preparado pelo garçom.
 
PRIVACIDADE
 
Os funcionários, porém, são comedidos sobre a divulgação do trabalho. O Estado visitou o local e foi recebido pelo gerente, que ao saber do interesse em se fazer uma reportagem, tapou com a mão o crachá com o nome afixado na camisa de Portugal. Logo ele se esquivou e voltou ao balcão. Os garçons ficaram desconfiados com as perguntas. “Vai querer algo para comer?”, retrucou um rapaz com o uniforme da Bélgica ao ser questionado por mais detalhes sobre os drinques.
 
Os cardápios em russo ajudam a disfarçar o tom de ironia presente nas opções. O jeito russo de ser faz com que tudo no país esteja com um pé no passado e outro no futuro. O doping é uma sombra ruim dos anos anteriores, mas mesmo com tudo transformado em algo atrativo, o comportamento desconfiado permanece como se no estabelecimento ainda circulassem amostras de urina adulteradas.
 
 
Ciro Campos / O Estado de S. Paulo
 

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