Polícia
09/10/2018 - 09h19

Mortes em série fazem de Baixada Santista zona de alto risco para policiais


Total de assassinatos de agentes na região se iguala à soma de 4 áreas de SP
 
“Seja forte, Deus está contigo!” Quando recebeu essa mensagem no celular em uma manhã de setembro, Claudenice Barreto dos Santos, 47, não precisou pedir explicações a quem enviou o recado. Ela tinha certeza de que havia chegado o dia que sempre temeu.
 
O marido dela, o cabo José Aldo dos Santos, 49, acabava de sofrer um ataque e ingressava para a triste lista de policiais militares assassinados na Baixada Santista — região do estado de São Paulo que se consolidou nos últimos anos como de alto risco para PMs.
 
“Sempre me coloquei na situação das outras mulheres de policiais mortos e, agora, sou uma delas”, disse. Desde 2001, segundo dados da Polícia Militar, ao menos 88 policiais foram assassinados em Santos e cidades da região, como Guarujá, Cubatão, São Vicente, Praia Grande e Itanhaém.
 
Mortes que equivalem à soma das regiões de Campinas (60), Ribeirão Preto (23), Presidente Prudente (4) e Araçatuba (1) nesse mesmo período.
 
Além da quantidade, os ataques a PMs nesse território também se distinguem pelo grau de violência empregado pelos criminosos.
 
José Aldo foi morto em uma emboscada em Guarujá por um grupo de homens armados com fuzis que, estima-se, dispararam 50 vezes. “Era um policial bem treinado, experiente, dedicado, com força física, mas poderia ser o Rambo, o Superman, que não teria chance”, disse o comandante da PM na região, coronel Rogério Silva Pedro, 48.
 
Desde 2011, foram ao menos outros cinco ataques a PMs com uso de fuzis —algo absolutamente incomum em outras regiões do estado, segundo a Corregedoria da Polícia Militar paulista.
 
Entre os casos mais emblemáticos está o assassinato do sargento Marcelo Fukuhara, 45, em outubro de 2012. Ele foi fuzilado quando passeava à noite com o cachorro, em frente ao restaurante da família, em Santos.
 
Outro caso caso de forte comoção na tropa se deu seis meses depois, em Guarujá, quando o sargento Manoel Fernando Azevedo, 53, foi morto com 15 tiros de fuzil em um bar onde jogava sinuca.
 
A morte de Azevedo se tornou ainda mais simbólica pela tentativa de invasão ao cemitério onde o PM foi enterrado.
 
“As pessoas da favela queriam ir lá, abrir a gaveta, retirar o corpo para poder colocar fogo. Aí, teve escolta da PM no cemitério para que isso não acontecesse”, diz a viúva Vivian Paula Domingos, 40.
 
Tempos depois, porém, os criminosos foram até lá e destruíram parcialmente o túmulo, principalmente a placa em homenagem ao PM com a foto dele. “Foi uma coisa cruel, falta de respeito muito grande.”
 
PMs ouvidos pela Folha dizem que o corpo do policial chegou a ser jogado no meio de cemitério e recebeu alguns disparos dos bandidos.
 
Uma semelhança entre os policiais atacados é que todos eram considerados “linha de frente”, ou seja, atuavam fortemente no combate à criminalidade local, dominada pela facção criminosa PCC.
 
Algo também comum na morte de policiais com esse perfil é a comemoração dos criminosos, com queima de fogos de artifício, como ocorreu com Azevedo e José Aldo.
 
 
“Dez minutos após a morte do Aldo, teve o foguetório aí [na favela]. Nos bares, estavam dizendo que teria festa na comunidade. Só não teve porque a PM agiu rápido e ocupou a favela”, diz José Paulo dos Santos, 55, PM aposentado e irmão do cabo morto.
 
Além de ataques planejados com uso de fuzis, há também casos de crueldade praticada contra policiais acidentalmente identificados por bandidos.
 
Há registros de ao menos três PMs sequestrados, torturados e mortos, a exemplo do que às vezes ocorre em favelas do Rio dominadas pela facção Comando Vermelho.
 
Um desses crimes se deu em 2013 em São Vicente. O soldado Leandro do Nascimento Carvalho, 28, foi torturado e morto a tiros após ser identificado em um baile funk. Após os disparos, foi esquartejado pelos criminosos, que atearam fogo ao corpo.
 
“A Baixada não vira e não vai virar um Rio de Janeiro em razão da postura dos órgãos policiais aqui”, diz o PM Rogério. “Você tem cidades com 41% da população vivendo em aglomerados. Há acúmulo de infratores muito grande nesses locais. Existe uma fábrica de infratores ali, e isso que acaba gerando um risco maior.”
 
De acordo com o Ministério Público, a Baixada Santista é dos principais redutos do PCC no estado de São Paulo.
 
De lá saíram os criminosos suspeitos de participação direta nas mortes de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, chefões da facção. Eles foram assassinados no início deste ano.
 
O tenente-coronel Flávio César Montebello Fabri, coordenador do grupo que investiga crimes contra PMs (o PM Vítima), diz que as questões geográficas da Baixada, muitas vezes semelhantes às do Rio, complicam o trabalho de apuração dos crimes.
 
Ainda segundo ele, há na região uma grande quantidade de pessoas ainda muito jovens envolvidas no crime.
 
“Com comportamento muito mais audacioso e violento do que se comparado a outros locais”, disse o oficial Fabri.
 
Para o advogado Arles Gonçalves, da Comissão de Segurança da OAB, a lei que agravou a pena para homicídios contra agentes da lei, sancionada há três anos, ainda não surtiu efeito.
 
“Em países de Primeiro Mundo, quando você ataca um policial, você ataca o Estado. O Estado reage. Aqui, não. O bandido ataca o policial e fica por isso mesmo”, disse ele.
 
 
Folhapress
 

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