Trabalho
12/06/2019 - 04h51

Trabalhadores por trás dos games


Nem só de experts em tecnologia e desenvolvimento se faz um jogo. Conheça profissionais de diferentes especialidades que trabalham com esse tipo de produto
 
 
O mercado de jogos digitais é cada vez mais promissor em Brasília e no Brasil. E, além de oportunidades de negócios, como mostrou a reportagem “Carreira em jogos”, publicada no caderno Trabalho & Formação Profissional no último domingo (2), gera empregos. Diferentemente do que se possa pensar, o setor tem espaço bem mais do que apenas para especialistas em desenvolvimento ou em tecnologia da informação. Cientistas e engenheiros da computação são grande parte da mão de obra nessa área, mas ela é composta também por ilustradores, músicos, roteiristas, administradores, gestores de projeto, dubladores e muitos outros perfis. Conheça alguns trabalhadores do ramo:
 
Socióloga no entretenimento digital
 
Clarice Cançado Monteiro, 28 anos, se formou em sociologia pela UnB e acabou indo trabalhar numa área improvável para graduados na área, tudo porque o interesse por games falou mais alto. “Em 2015, eu comecei a estudar jogos por conta própria e só tinha a vontade de fazer, mas não sabia programar, desenhar, nem nada”, admite. De modo autodidata, ela aprendeu a usar softwares de edição de imagens, arte e animação ao longo do ano de 2016. “Eu dava aula de sociologia e, nas horas vagas, estudava desenvolvimento de jogos focado em arte”, explica.
 
“Em 2017, eu parti para a programação mesmo, com a intenção só de sobreviver com isso, mas aí eu me identifiquei muito com esse processo e hoje em dia é uma das coisas que mais gosto de fazer dentro dos jogos”, afirma. “A comunidade de jogos é muito unida aqui em Brasília, que tem muita disposição para compartilhar conhecimentos, a galera se ajuda muito, então aprendi muito dessa forma”, conta. O Ateliê Xinela, fundado em junho de 2018 focado em “games e coisas maneiras”, de acordo com a descrição da própria empresa, além de desenvolver jogos com uma pegada mais ligada à arte, também funcionam como um ateliê criando materiais artísticos como camisetas, decorações e etc.
 
Artista plástica graduada na área pela UnB, Mariana Bittencourt , 27, também trabalha no Ateliê Xinela e entrou no mercado de jogos para desenvolver games com caráter artístico. “Trabalho com ilustração 2D, mas experimentamos um pouco de tudo. Meu curso de formação se alinha bastante com o que faço hoje no ateliê. Nunca fiz nenhuma capacitação no universo dos jogos, mas aprendo muito com amigos da área, além de game jams (competições de jogos) e sendo curiosa na internet”, relata. Mais conhecida como Nana, ela pretende continuar nesse mercado. “Vejo muito potencial na área.”
 
O valor da ilustração
 
O visual de um jogo pode ser definitivo para o sucesso dele. Há muitos artistas colorindo e trabalhando em cada detalhe do cenário e dos personagens para garantir isso. Entre eles, está o ilustrador Hugo Vaz Aragão Carneiro, 30, sócio da Behold Studios. “Antes de entrar nesse mercado, eu tinha o desenho como hobby, tinha interesse na parte visual da coisa e decidi entrar no curso”, conta o graduado em desenho industrial pela UnB.
 
“No meu dia a dia, faço o trabalho de ilustração, que não é exatamente a minha formação, mas, como eu desenhava antes, então, encaixou muito bem”, conta. “Também produzo logotipo, identidade visual, design de interface…”, elenca. “Meu processo é basicamente desenhar bastante, rabiscar no papel e, então, levar para o computador com ajuda do Photoshop, minha principal ferramenta”, explica. Outro auxílio é uma mesa digitalizadora, que permite passar o traço da caneta para a tela do computador. “É a junção da técnica do papel com o potencial que o programa traz”, ressalta.
 
Roteirista de atalhas virtuais
 
Tiago Rech, 30, fez graduação em jogos digitais na Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul. Ele começou a faculdade por querer se tornar roteirista de games. “Eu iniciei minha carreira trabalhando num estúdio de jogos que ficava ao lado da universidade, de proriedade dos coordenadores do curso, e eles chamavam alguns alunos para trabalhar lá”, recorda. “No fim de 2012, esse estúdio fechou. E, no ano seguinte, alguns colegas me convidaram para outro projeto”. O roteirista autônomo admite que, muitas vezes, trabalhar só com roteiro acaba ficando inviável, apesar de ser esse o foco dele.
 
“Quando entrei no curso de jogos, foi pela parte de roteiro, mas, neste mercado, num estúdio pequeno, existem muitas competências imediatas necessárias”, pondera. “Às vezes, precisam de um programador, de um artista, então você pega a chance que surgir. E, depois, vai indo para o roteiro, aos poucos. Foi que aconteceu comigo”, aponta. “O desenvolvimento é algo bem particular de cada projeto. Há necessidades bem específicas. Tudo o que é colocado no roteiro terá que acontecer no jogo, se houver uma batalha, terão que programá-la, desenhá-la etc.” “Vim para Brasília a convite da Behold Studios para desenvolver o jogo Galaxy of Pen and Paper em 2017”, conta. Tiago trabalha como freelancer desde 2018, e já colaborou com a produção de quatro jogos. Os jogos Z, Zoongs, produzidos para Androids (não se encontram mais disponíveis). O Galaxy of Pen & Paper (Steam) e Decor Dream (iOS) e mais  três estão em fase de produção.
 
Arquiteto de jogos
 
Arquiteto e urbanista graduado pela Universidade de Brasília (UnB), Alexandre Theodoro Assumpção Costa, 29 anos, se envolveu com o mercado de games durante a faculdade. “Sempre fui muito atraído pelos jogos. Conforme eu fui estudando, percebi que havia uma aplicação muito legal para a arquitetura naquela área”, lembra. “Então, comecei, ainda na graduação, a estudar sobre o espaço virtual, sobre como poderia desenvolver maquetes e simulações. Assim que me formei, entrei neste setor”, explica.
 
 “Acredito que muitos entram na área de forma amadora, na vibe do ‘vamos fazer jogo’, mas sem ter noção de administração, marketing, design”, compara. “No meu caso, aproveitei o meu background para começar com o pé direito”, conta. “Como sou de arquitetura, eu sou voltado mais para game design, sou a pessoa que estuda o funcionamento do jogo, as mecânicas, e a própria arte”, esclarece. Hoje, Alexandre é fundador da Level Cap Studios, uma das empresas que utilizam o espaço da Indie Warehouse no Lago Norte.
 
Quem faz a trilha sonora
 
Assim como o visual, o som de um game é outro aspecto decisivo, a fim de dar emoção nos momentos certos, sem deixar a música ser enjoativa. Essa é a missão de Pedro de Freitas Neder, 27. “Eu tenho trabalhado em game jams. A minha missão nesses eventos é cuidar unicamente do som”, conta o estudante do 6º semestre do curso de música da UnB. Pedro admite que, muitas vezes, a função dele poderia ser substituída por bancos de dados de som prontos. “Têm trilhas prontas, disponíveis e gratuitas na internet. O que é ruim para o meu trabalho”, observa. No entanto, uma música personalizada para um jogo faz a diferença.
 
Durante game jams, a atividade é um pouco superficial, pois há pouco tempo para desenvolver um game. “São curtos, não dá para trabalhar muito neles, então acaba que temos que fazer alguma sonoplastia, mas o meu foco é em trilha sonora e é a formação que estou buscando”, conta ele, que também é aluno da Escola de Música de Brasília. “Faço curso de piano técnico erudito”, diz. “Estou me aprimorando, mas eu não diria que é essencial ter um diploma para trabalhar com música em jogos. Mas é interessante o conhecimento que se adquire ao longo do curso”, afirma. “Normalmente, eu não participo muito da parte criativa do jogo, eu me envolvo mais na história e tento ficar a par da estética do jogo, do áudio, para criar a música certa”, explica. A experiência do Pedro com o mercado foi apenas em eventos. “Ainda não participei de nada voltado para o mercado remunerado”, explica.
 
O músico Víctor Hugo Sanches Moreira, 22, é novato no mercado de jogos. “Eu comecei no ano passado no setor de jogos, mas faço trilha sonora para produtos do audiovisual (vídeos, comerciais, etc) há um ano e meio.” Ele atua como autônomo e é contratado sob demanda. “Também componho música para concursos e fiz a trilha sonora de um jogo que é projeto de conclusão de curso de um amigo”, conta. O jovem não se restringe ao setor de games: ele o enxerga como mais um ramo em que pode trabalhar. “Sou autônomo, dependo de demanda e contratos. Faço o que vier”, afirma. Víctor explica a diferença entre produzir para jogos e outros produtos audiovisuais. “Para games, a trilha tem que ser mais dinâmica. É preciso compor várias coisas que vão se conectar para se tornar algo maior. E, de acordo com as ações do jogador, e o caminho, a música vai mudando também”, informa. “O cinema também tem suas peculiaridades, como pegar um vídeo e colocar a música no tempo exato para marcar tal ação”, diferencia. De formação, Víctor tem o curso de trilha sonora para cinema e TV, com Eugênio Marcos.
 
 
Correio Braziliense
 

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