Meio Ambiente
03/12/2019 - 04h01

9 perguntas sobre o óleo na costa brasileira que ainda aguardam respostas


Já são 90 dias desde que primeiras manchas foram detectadas no litoral. Desastre ambiental atingiu mais de 800 locais em 11 estados brasileiros.
 
 
Já se passaram 90 dias desde que as primeiras manchas de óleo surgiram na costa brasileira e ainda há mais dúvidas do que respostas. O petróleo já chegou a pouco mais de 800 locais em 11 estados — todo o Nordeste, o Espírito Santo e, mais recentemente, o Rio de Janeiro.
 
A tragédia ambiental que é classificada como a maior do País ao menos em extensão — dos 7,5 mil quilômetros de costa, atingiu mais da metade — afeta vida e rotina de vilas de pescadores, mas também de comerciantes e tem deixado todos em alerta com as proximidades do fim do ano. Afinal, como ficará a questão com a chegada das festas? Será possível entrar nas praias aonde o óleo chegou? E o pescado das regiões afetadas? Isso ninguém sabe.
 
De certo, a Petrobras garante que o petróleo é venezuelano. A Marinha e o Ibama seguem monitorando e limpando as praias atingidas. E há grupos de estudo tentando prever próximos locais afetados. 
 
É muito pouco perto do tamanho do estrago já provocado. O HuffPost elencou nove entre as questões que ainda não têm resposta das autoridades:  
 
1. Qual a origem do óleo? 
 
As autoridades seguem várias linhas de investigação. No início de novembro, a Polícia Federal apontou o navio tanque de bandeira grega Boubolina como principal suspeito por ter derramado petróleo no mar. De acordo com a Marinha, a embarcação transportava produto do terminal da Venezuela para a África do Sul. A Delta Tankers, empresa à qual pertence o navio, nega as acusações. 
 
A consultoria norteamericana Skytruth colocou sob suspeita a investigação brasileira, mostrou o Estadão. De acordo com a especialista em análises do mar via satélite, não houve, na rota do navio, nenhum comportamento atípico. Ao questionar as imagens de satélite divulgadas pelas investigações do Brasil, a Skytruth disse que não há indícios de óleo, relatou o jornal.
 
De acordo com o comandante da Marinha, Ilques Barbosa Junior, o envolvimento do Boubolina é apenas uma das linhas de investigação, sob responsabilidade da Polícia Federal. Ele relatou que se trabalha em outras frentes, como algum navio afundado, barris de petróleo perdidos no oceano, ou até mesmo algum vazamento no mar - embora no caso desta hipótese, o vazamento, provavelmente já tivesse sido descoberto, conforme o próprio almirante admitiu.
 
 
2. Foi acidente?
 
O almirante Ilques comparou a situação do óleo que tem chegado ao litoral brasileiro há 90 dias e já atingiu quase 800 localidades com o atentado terrorista nos Estados Unidos de 11 de setembro, quando dois aviões atingiram as torres gêmeas que formavam o World Trade Center. Ele falou que “o Brasil foi vítima de uma grande agressão”, dando como certa a hipótese de um vazamento criminoso. Porém, as investigações não foram concluídas e o próprio comandante ressaltou isso. 
 
3. Ainda há óleo no oceano? 
 
Não se sabe. A Marinha tem navios em alto mar estudando correntes e tentando encontrar novos vestígios de óleo que porventura estejam boiando. Há ainda um acompanhamento feito em parceria com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) para rastrear novas manchas de petróleo.
 
Acontece que, como divulgado desde que as primeiras análises ficaram prontas, as características desse óleo, denso, impedem que ele flutue, o que vem dificultando seu monitoramento. 
 
Não apenas a origem como o volume total também é desconhecido. De acordo com o jornal O Globo, o derramamento de óleo que já atingiu 11 estados brasileiros é pelo menos 16 vezes maior que todos os vazamentos registrados oficialmente no País entre janeiro de 2012 e outubro de 2019. O balanço do jornal levou em conta números da ANP (Agência Nacional do Petróleo).
 
Até o momento, foram recolhidas cerca de 4,5 mil toneladas de óleo cru. Mas o peso inclui também areia, algas, lonas, pedras e equipamentos de proteção. Descartados todos os materiais, ficando apenas o óleo, o jornal carioca afirmou na reportagem que restam 4 mil toneladas. No período considerado, houve 774 vazamentos notificados, nos quais 250 toneladas de óleo foram despejadas em águas brasileiras ou em terra firme. 
 
4. Mais locais serão afetados?
 
Não é possível afirmar com certeza. Muitas praias que já foram limpas voltam a receber vestígios do petróleo, conforme vêm apontando os relatórios de localidades afetadas, atualizados diariamente pelo Ibama (Instituto Nacional do Meio Ambiente).
 
Na última quinta-feira (28), a Marinha divulgou uma nota na qual afirma que o grupo de trabalho 1 “concluiu como baixa a probabilidade de resíduos de óleo alcançarem as praias ao sul de Cabo Frio”, no estado do Rio de Janeiro. O GT estudou “a dinâmica das correntes oceânicas e a agitação marítima predominante ao sul do Cabo de São Tomé”.
 
Acontece que o próprio comandante da Marinha, Ilques Barbosa Junior, classificou as correntes como “um fenômeno aleatório”. Técnicos do Ibama disseram ao HuffPost que não há como garantir que elas não se aproximem do litoral. 
 
Existe, na região, o encontro das correntes do Brasil, com a das Malvinas, que ocasiona a criação de vórtices, uma espécie de redemoinho, onde o óleo pode escapar, partindo dali para o resto do litoral brasileiro. É por esse motivo a incerteza sobre o futuro do óleo mesmo com as pequenas partículas que têm sido encontradas nas praias do Rio. 
 
5. Até quando o óleo continuará chegando às praias?
 
Também não há resposta para isso. Isso porque, primeiro, não se sabe onde está o óleo. Ao vazar, explicam especialistas, ele foi se fragmentando. Agora, muitos acreditam, já está em pequenos pedaços. É por isso que, em várias praias, não estão mais chegando manchas grandes como no início da crise. O alerta, porém, é de que isso não significa um perigo menor sobre contaminação. 
 
Em segundo lugar, há o circuito de correntes. Esses fragmentos do óleo que se partiram estão presos nas correntes e se movimentam nelas. Por isso, não é possível afirmar com exatidão quanto tempo isso levará. Pode ser que, daqui alguns anos, novas partículas desse mesmo petróleo voltem a chegar ao litoral.
 
 
6. Qual o tamanho do estrago ambiental?
 
Já se fala no maior desastre ambiental de que se tem notícia no Brasil até o momento. Mas ainda não é possível dimensionar o tamanho da tragédia. 
 
O óleo que entrou nos rios e grudou nas raízes dos mangues deve permanecer lá por anos, uma vez que é impossível limpar as árvores por completo. 
 
Das grandes manchas iniciais aos pequenos vestígios encontrados agora, há impactos ambientais, alertam especialistas. As manchas maiores, que chegaram às praias nordestinas, foram recolhidas com facilidade, inclusive. Já os fragmentos menores, quase invisíveis aos olhos neste momento, têm potencial ainda mais danoso, pela latência de contato com a pele e de entrada na cadeia alimentar. A remoção de pequenas partículas de 2 a 5 milímetros está sendo feita em um lento processo de peneiração.
 
Todo o ecossistema marinho é afetado, o que inclui a fauna e a flora. Além dos animais marinhos, como crustáceos e peixes, tartarugas, baleias, corais, há também que se considerar as aves e os mamíferos aquáticos. Uma vez que o óleo entra na cadeia alimentar de um desses animais, todo o resto está comprometido, porque, além de altamente tóxico, ele não é eliminado por organismos. 
 
Sedimentado no fundo do mar e dos rios, o petróleo também inviabiliza a vida por ali. 
 
7. É seguro entrar na água em locais afetados? 
 
Não há consenso entre os pesquisadores a esse respeito. Há estudos da água do mar de diversas praias em que o óleo foi encontrado. Algumas foram consideradas impróprias para banho, outras liberadas. 
 
Alguns pesquisadores afirmam que, por ser o óleo altamente tóxico e com origem, local e volume desconhecidos, é prudente evitar o mar. Outros, porém, dizem que, não havendo mancha visível, não há problema. 
 
 
8. Como tratar as regiões afetadas, onde a pesca e, consequentemente, a economia local foram prejudicadas?
 
O HuffPost mostrou que pescadores e marisqueiros de Pernambuco têm sofrido, sem conseguir vender seu produtos. Assim, em casa, começam a passar necessidade. Comerciantes locais também sofrem as consequências do óleo. Muitos donos de barracas nas praias também reclamaram à reportagem que o movimento diminuiu desde as primeiras notícias de óleo na costa do País.
 
Embora o governo negue a necessidade de intervenção nos locais e apesar de o secretário de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif, dizer que não há problemas com os pescados, a população de forma geral está receosa e tem evitado o consumo, e isso se reflete na ponta. Também não há resposta para o problema. 
 
9. Quando será seguro comer peixes, mariscos, frutos do mar de forma geral? 
 
Especialistas afirmam que será necessário um monitoramento de, ao menos, 20 anos. Porém, não bateram o martelo sobre o tempo que se deve esperar para voltar a consumir peixe dos locais afetados. 
 
Assim como Seif, o Ministério da Agricultura também garantiu a qualidade dos pescados em 11 de novembro, em nota.
 
Contudo, como o HuffPost mostrou, o pesquisador que realizou o teste com os peixes a pedido da própria pasta, o professor Renato Carreira, do Laboratório de Estudos Marinhos e Ambientais da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), contestou o governo federal. Segundo ele, o que se apontou como próprio para consumo foram apenas pescados com selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF), o que significa que os peixes artesanais, dos pescadores dos locais afetados, que realizam pesca artesanal, não foram analisados ainda — apenas os peixes industriais.
 
O problema é que são os peixes artesanais a maioria dos pescados consumidos nas barracas de beira de praia, comprados da população local.
 
 
HuffPost
 

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