Trabalho
28/09/2020 - 05h40

Geração lockdown: Crise do coronavírus leva jovens ao desemprego e informalidade


Além de ganhar menos e ter mais dificuldades para encontrar trabalho, geração sofre com interrupção da vida escolar e acadêmica
 
A recepcionista Aryadne Moreira, de 23 anos, mal tinha completado um mês no emprego quando o governo de São Paulo determinou, em 23 de março, a quarentena para todos os serviços não essenciais no estado.
 
Obrigada a fechar as portas temporariamente, a importadora onde ela trabalhava dispensou sete funcionários e colocou os demais em home office.  O pouco tempo de casa impediu Aryadne de optar pela suspensão remunerada do contrato de trabalho. Sem alternativas, teve de recorrer ao auxílio emergencial.
 
“Só consegui a primeira parcela em junho”, lamenta. Desde os 17 anos trabalhando, é a primeira vez que enfrenta um período tão longo de desemprego. “Não sou uma pessoa que passou por muitas dificuldades, mas agora venho enfrentando algumas.”
 
Morando sozinha na capital desde que a mãe voltou para o Paraná e com o pai também desempregado, ela tem se mantido com os 600 reais mensais. “Consigo fazer mercado, comprando só o básico. Açougue também é contado, bem difícil sobrar um dinheiro pra ir à feira.”
 
A jovem paulistana engrossa, hoje, a mais longa fila de desemprego do Brasil. A taxa de desocupação, que chegou a 13,3% no segundo trimestre deste ano, segundo a última Pnad Contínua, alcança 29,7% na população entre 18 e 24 anos. O fenômeno não é novo, mas foi agravado pela pandemia. Em 2019, os jovens desempregados nessa faixa de idade eram 25,8%.
 
No segundo trimestre, o desemprego chegou a 29,7% na população entre 18 e 24 anos
 
Depois de quatro entrevistas de emprego malsucedidas e temendo o corte no benefício nos próximos meses, Aryadne decidiu empreender. Conseguiu, com a ajuda de amigos, arrecadar 500 reais para dar início à produção caseira de salgados.
 
Não é a única a recorrer a essa alternativa. Em agosto de 2020, o número de microempreendedores individuais, os MEIs, chegou a 10,6 milhões. Eram 8,8 milhões no mesmo período do ano passado.
 
A jovem espera retomar em breve o curso técnico em marketing que abandonou no início do ano. Por enquanto, passou para a informalidade.
 
Mais uma entre milhares. Segundo estudo da consultoria iDados, 89% dos 230 mil jovens que conseguiram emprego em 2019 estavam na informalidade.
 
Essa faixa da população, que historicamente corre riscos de inatividade, foi atingida de forma particularmente dura pela crise. E não só no Brasil. Nos Estados Unidos, mais da metade dos jovens adultos está morando com os pais, um recorde no país desde a Grande Depressão. Em números absolutos, entre fevereiro e julho, 2,6 milhões voltaram para a casa dos pais. Segundo o Pew Research Center, autor do estudo, o aumento foi relativamente igual entre grupos raciais e étnicos, homens e mulheres, e residentes metropolitanos e rurais.
 
Antes da pandemia, o desemprego entre os jovens na União Europeia era de 14,9%. Em julho, subiu para 17%, mais que o dobro da média geral. Teme-se um novo pico que quebre o triste recorde registrado de 24,4% em 2013. A Organização Internacional do Trabalho alerta para o risco de que esses jovens fiquem marcados como a Geração Lockdown.
 
A cada dez jovens empregados no mundo, segundo a dados da OIT, quatro trabalhavam em setores fortemente atingidos pela crise.
 
Em números absolutos, são 178 milhões de jovens. Quase 77% dos jovens trabalhadores estão na informalidade – entre os maiores de 25 anos, são 60%. A taxa de informalidade juvenil varia de 32,9% na Europa e Ásia Central para 93,4% na África.
 
“Esse triplo choque da perda de emprego, hiato educacional e informalidade cria uma situação que não vai se resolver rapidamente”, avalia o alemão Martin Hahn, diretor da OIT no Brasil.
 
Mesmo antes da crise, mais de 267 milhões de jovens eram ‘nem-nem’: não estudavam, nem trabalhavam.
 
Além de ganhar menos e ter mais dificuldades para encontrar empregos formais, os mais jovens sofrem também a interrupção da vida escolar e acadêmica.
 
A evasão universitária, que já vinha em tendência de alta, deve aumentar por conta do cenário de incertezas na economia, com salários reduzidos e perda de emprego colaterais à pandemia.
 
O estudante Maurício Diniz, de 22 anos, cursava Direito em uma universidade privada em Vitória da Conquista. Insatisfeito com a qualidade das aulas à distância, resolveu trancar o curso. “Tinha professor que nem aula dava, mas a mensalidade continuava igual”, conta.
 
O carioca Matheus Baião, prestes a se formar em Letras na UFRJ, também de 22 anos, tem tido dificuldades de manter a rotina de estudos a distância. “Desde que a pandemia começou, a situação financeira da minha família piorou muito. Tenho de ajudar nos negócios da minha tia, que é autônoma, e não estou tendo tempo para os estudos. Não sei se consigo voltar antes do fim do semestre.”
 
Ele também se preocupa com a baixa nas bolsas de pesquisa. “Por prazer mesmo, na academia, mas tenho virado minha atenção para tradução.”
 
A verba garantida no orçamento de 2021 para o Capes e a CNPq cobre, respectivamente, 4 e 8 meses de bolsas. As demais dependem de créditos suplementares, a serem aprovados pelo Congresso. O orçamento para ciência, educação e tecnologia vem minguando desde 2015.
 
Aos que podem, a saída tem sido o aeroporto. O número de cientistas que trocou o Brasil por países nos quais o desenvolvimento científico é investimento, e não gasto, passa de 937, segundo uma contagem do movimento Diáspora Científica Brasil.
 
O triplo choque que atingiu os millennials, especialmente a porção mais jovem, não traz apenas frustração e desalento. “Primeiro vêm os problemas pessoais. Muitas vezes a pessoa pagou o curso, se endividou, isso pode tornar-se uma bola de neve. Do ponto de vista social, é desperdício de capital humano”, avalia o economista Bruno Ottoni, pesquisador do iDados.
 
Cada ano com o diploma na gaveta, explica, deprecia um pouco mais esse capital. De 2019 para cá, a taxa de diplomados que atuavam em empregos nos quais o diploma não era necessário saltou de 30% para 40%.
 
À falta de postos de trabalho soma-se a dificuldade em continuar os estudos
 
É o caso de Francielle Soares, de 25 anos. Formada em Engenharia Civil em uma das mais conceituadas universidades paulistas, com bolsa integral do ProUni, ela mudou de área e hoje trabalha como programadora em um banco. Sua trajetória, contudo, é um ponto fora da curva: além de manter o emprego durante a pandemia, não viu ninguém do próprio setor ser dispensado. “Houve um pacto de não-demissão até o fim da pandemia. Estou de home office até janeiro.”
 
Única negra entre os colegas, ela vê com bons olhos iniciativas que visam aumentar o percentual de pessoas como ela em cargos gerenciais. Recentemente, o Magazine Luiza abriu um processo de trainee exclusivo para negros. Mas faz ressalvas: “Acho que esse ano as coisas serão diferentes, não porque mudou o processo, mas porque não pega bem tirar foto de um grupo de cem aprovados e todos serem brancos”.
 
Os nascidos entre o meio dos anos 1980 e fim dos anos 1990 já compõem metade da força de trabalho brasileira. Até 2030, devem ocupar 70% dos empregos. É grave que todo esse contingente tenha mais dificuldades em constituir família, comprar casas ou abrir o próprio negócio, ficando refém de uma adolescência prolongada e reduzindo, inclusive, os efeitos positivos das políticas de acesso à educação das últimas duas décadas. Com o freio da economia puxado, o risco é que essa geração que manteve o diploma na gaveta nem chegue a atuar na área de formação, pois será substituída pelos mais jovens.
 
“Podemos entrar em círculo vicioso. Se, eventualmente, houver um crescimento expressivo, talvez tenhamos falta de mão de obra em algumas categorias. Você cria gargalos na economia que são difíceis de ser preenchidos. Reformas macroeconômicas que podem ajudar, mas sou pessimista à chance dessas agendas avançarem”, diz Ottoni.
 
No ano passado, o banco americano Goldman Sachs apontava o voo de galinha no PIB como a mais lenta entre as recuperações das recessões vividas pelo Brasil desde os anos 1980. E indicou que a América Latina deve viver uma “segunda década perdida”.
 
O elevador social, que já estava enguiçado, agora parece ter parado de vez.
 
 
Carta Capital
 

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