Saúde
13/09/2018 - 05h17

Câncer no Brasil pode aumentar em 78% nos próximos 20 anos


Doença avança no mundo e deve ganhar espaço em países emergentes 


 
O câncer avança e 18,1 milhões de novos casos serão registrados em 2018 no mundo, com um total de 9,6 milhões de mortes. Os dados foram publicados nesta quarta-feira, 12, pela Agência para a Pesquisa do Câncer, uma entidade ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS). 
 
O levantamento alerta que, se nada for feito, as incidências vão atingir 29,4 milhões de novos casos em 2040, uma expansão de 63% nos próximos 20 anos. A mortalidade deve subir de 9,6 milhões de pessoas hoje para 16,3 milhões em 2040. Essa é a primeira vez desde 2012 que novos números estão sendo publicados. Há cinco anos, eram 14,1 milhões de novos casos e 8,2 milhões de mortes. 
 
O que as entidades alertam ainda é que serão os países emergentes que mais registrarão o aumento de casos, com um salto de 62% até 2040 e um total de 10 milhões de novos casos.
 
De acordo com o levantamento, o Brasil somará em 559 mil novos casos de câncer, com 243 mil mortes, em 2018. Mas as projeções da entidade apontam que a doença pode sofrer um aumento de 78,5% até o ano de 2040, um dos maiores saltos entre as principais economias. No total, 998 mil novos casos serão registrados. 
 
"Não é uma boa notícia", admitiu um dos cientistas da agência, Jacques Ferlay. Para ele, os efeitos do tabaco, obesidade e falta de atividade física podem explicar em parte o salto. 
 
 
Hoje, o câncer mais frequente no Brasil é o de mama, com 85,6 mil casos, 15,3% do total. O segundo lugar é o de próstata, com 84,9 mil. Mas essa é a doença que mais mata entre os incidentes de câncer, com 30% dos casos. 
 
Hoje, de acordo com o levantamento, um em cada cinco homens e uma em cada seis mulheres desenvolverão o câncer durante suas vidas. A taxa de mortalidade é elevada. Um em cada oito homens e uma em cada onze mulheres morrerão pela doença. 
 
No total, 43,8 milhões de pessoas no mundo estão vivendo os cinco anos de prevalência do câncer e 1,3 milhão delas estão no Brasil. Há cinco anos, eram 32 milhões de pessoas nessa situação. Se parte da explicação é a capacidade de um número maior de pessoas de sobreviver à doença, ela não é o único motivo. 
 
De acordo com a pesquisa, o envelhecimento da população e mudanças de estilo de vida ligado ao desenvolvimento social são dois dos fatores que estão contribuindo para os números cada vez mais elevados.
 
“Isso é o caso também de economias emergentes que estão crescendo rapidamente e onde uma mudança é observada de infecções ligadas à pobreza para câncer associada com o estilo de vida mais parecido a países industrializados”, indicou. 
 
Alimentação, bebida, falta de atividades físicas e envelhecimento seriam alguns dos principais fatores. Mas a agência diz não ter ainda dados que sustentem a teoria de que a introdução massiva de novas tecnologias e telefones celulares possam ter um impacto no número de doenças. 
 
Ainda assim, as regiões mais desenvolvidas do mundo são responsáveis por um volume desproporcional de incidentes da doença. A Europa, com apenas 9% da população mundial, conta com 23% dos incidentes de câncer no mundo. Na Ásia, com 60% da população mundial, registra 48% dos casos de câncer no mundo. 
 
Incidência
 
Juntos, mama, pulmão e colorretal representam um terço de todos as incidências de câncer no mundo. Em 2018, a estimativa é de que 2,1 milhão de pessoas serão afetadas por câncer de pulmão e 1,8 milhão de pessoas vão morrer, 18% de todos os casos. O câncer de pulmão é ainda a principal causa de morte entre os cerca de 30 tipos de câncer. 
 
Mas um dos alertas se refere ao aumento de incidência da doença entre mulheres, onde já é a primeira causa de morte em 28 países. As taxas mais elevadas entre as mulheres estão na América do Norte, Europa (com especial destaque para Holanda e Dinamarca), além de China e Austrália. 
 
Mas a esperança é de que, nos países ricos, o câncer ligado ao cigarro deve atingir seu pico em 20 anos e começar a cair. Já o câncer de mama também afeta 2,1 milhões de pessoas e é o mais comum em 154 dos 185 países. Mas, por conta de sua alta taxa de diagnóstico, é apenas o quinto que mais mata, com 627 mil casos por ano. Ainda assim, trata-se do maior responsável por mortes de mulheres entre os diferentes tipos de câncer. 
 
O câncer colorretal vem na terceira posição e atinge 1,8 milhão de pessoas, contra 1,3 milhão de incidentes de próstata. “Esses números mostram que muito ainda precisa ser feito para lidar com o aumento alarmante do câncer e que a prevenção tem um papel importante”, disse Christopher Wild, diretor da agência. 
 
Freddie Bray, chefe do sistema de monitoramento, também alerta que, hoje, menos de 40 países tem a capacidade de um diagnóstico de qualidade de câncer para a população.
 
'Talvez a dieta seja um dos fatores mais importantes', diz médica
 
Médica epidemiologista e líder do Departamento de Epidemiologia do A.C.Camargo Cancer Center, Maria Paula Curado diz que o aumento dos casos de câncer é algo que deve continuar ocorrendo, não só pelo envelhecimento da população, mas por causa dos hábitos de vida adotados pelas pessoas.
 
"O primeiro fator que influencia nesses resultados é o envelhecimento, que aumenta o risco por uma mudança da imunidade do indivíduo, mas, se não houver uma mudança do estilo de vida, esse número só tende a aumentar. Talvez a dieta seja um dos fatores mais importantes, com o consume de alimentos superprocessados, fast food, porque o tipo de câncer que está aumentando mais é do trato gastro intestinal, que é ligado à alimentação", avalia.
 
Maria Paula avalia que a prevenção não deveria ser feita apenas pela população adulta, mas começar na infância. "A prevenção e a redução do risco de câncer começa na escola. A carcinogênese (formação do câncer) é um processo lento, para a maioria das pessoas, demora de dez a 15 anos, mas, para que uma pessoa mude os hábitos de vida, tem de começar ainda jovem."
 
A médica epidemiologista afirma que, no Brasil, os tipos de câncer que mais atingem a população ainda são os considerados preveníveis, como os causados por tabaco (pulmão) e por infecções, como o de colo de útero.
 
O empresário Paulo Roberto Al Assal, de 49 anos, acompanhou a mãe, diagnosticada com câncer de pulmão em 2007, durante cinco anos e isso fez com que ele mudasse algum de seus hábitos não só para prevenir a doença, mas para ajudar outras pessoas também. Ele já tinha uma alimentação saudável e praticava atividades físicas, só não tinha o hábito de fazer check-up.
 
"Ela era uma pessoa cheia de vida, trabalhava com moda, estava feliz por ter tido as duas netas, minhas filhas, foi fazer um exame de rotina, porque estava com falta de ar e descobriu um tumor gigantesco. Ela morria de medo de ir ao médico e, quando descobriu, estava em estágio quatro. Deste momento até hoje, virei um ativista em relação ao câncer para defender outras famílias para que não passem o que passamos. Virei voluntário de ONGs como Oncoguia e o Beaba, de câncer infantil."
 
O empresário diz que, agora, os exames preventivos fazem parte de sua rotina. "Faço acompanhamento todos os anos e há três anos, descobri dois nódulos no pulmão, mas não era nada, eram resquícios de algo que tive no passado. A cada seis meses, faço exames especificamente do pulmão. Tem de fazer. Se não detecta cedo, o próximo passo pode ser a morte."
 
 
O Estado de S. Paulo