Política
07/11/2018 - 03h59

Como explicar a ‘nostalgia da ditadura’?


Somente psicologia pode ajudar a entender desejo de retorno ao Regime Militar

 
“As nuvens alaranjadas do poente iluminam tudo com o encanto da nostalgia; mesmo a guilhotina.”
Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.
 
Cientistas políticos se desdobram para explicar aos jornalistas o Brasil que está saindo das urnas. Creio que os profissionais da imprensa deveriam buscar essas explicações também junto a psicólogos, pois muito do que está ocorrendo hoje em nosso país só pode ser bem compreendido com auxílio da psicologia social – especialmente do ramo que estuda a “psicologia das massas”. Talvez esse campo da ciência possa nos ajudar a decifrar alguns transes coletivos estranhos que estamos presenciando.
 
Por exemplo, sempre fico intrigado com as pessoas (e não são poucas) que querem a volta do Regime Militar e que por isso adulam os apologetas da ditadura. Quando vejo jovens defendendo essa bandeira, atribuo isso à sua inexperiência e natural imaturidade: não tendo vivido sob aquele regime de exceção, desconhecem o seu caráter pernicioso, o que a falta de leitura, informação e educação só agrava.
 
Mas, como explicar que instruídos marmanjos de mais de cinquenta anos, tendo testemunhado pelo menos o ocaso do regime de exceção, peçam o seu retorno, até mesmo em inacreditáveis e patéticas passeatas? Meu impulso inicial é explicar este desejo nada recôndito como algo inerente à insensatez humana. Porém, refletindo melhor, creio que esta é uma resposta fácil e simplista, que despreza os elementos psicológicos das “escolhas irracionais”. Penso que muitos “nostálgicos da ditadura” possuem uma memória afetiva daquele período, pelo simples fato de que aquele foi um tempo de estabilidade e felicidade em sua vida pessoal (e esse sentimento é aguçado se essa “época feliz” coincide com uma infância permeada por afeto e proteção). Tento entendê-los, sem, evidentemente, resvalar um centímetro sequer para a indulgência.
 
No plano literário, quem melhor compreende este fenômeno, a meu ver, é o “mestre da nostalgia”, o escritor tcheco Milan Kundera, já citado na epígrafe.  Vejam que curiosa essa passagem do consagrado “A Insustentável Leveza do Ser”:
 
“Parece incrível mas, ao folhear um livro sobre Hitler, comovi-me com algumas das suas fotografias; faziam-me lembrar a minha infância passada durante a guerra; diversas pessoas da minha família morreram nos campos de concentração dos nazistas, mas o que eram essas mortes comparadas com uma fotografia de Hitler que me fazia lembrar um tempo perdido da minha vida, um tempo que nunca mais há de voltar? Esta minha reconciliação com Hitler deixa entrever a profunda perversão inerente ao mundo fundado essencialmente sobre a inexistência de retorno, porque nesse mundo tudo se encontra previamente perdoado e tudo é, portanto, cinicamente permitido”.
 
Neste que é um dos maiores clássicos do romance europeu da segunda metade do século XX, o escritor de Brno lamenta a infância perdida, que calhou de ocorrer durante a ocupação nazista, a qual, por mais cruel que tenha sido para o mundo dos adultos, permaneceu em sua memória como um tempo de egoística felicidade. É claro que o autor, tendo enfrentado em sua vida adulta todos os problemas decorrentes do autoritarismo da ocupação soviética em seu país, pôde amadurecer sobre o “peso” da memória individual que é indiferente ao sofrimento da nação. Mas o seu testemunho revela a força ingente do elemento psicológico na releitura do passado “que não volta”.
 
Percebi esse tipo de sentimento irracional (embora humano) também quando visitei a Alemanha, no ano passado. Estive em Berlin, Dresden e Leipzig, ou seja, no território que pertencia a antiga Alemanha Oriental (DDR – Deutsche Demokratische Republik) e cuja população viveu sob o regime comunista do pós-guerra até 1989. Causou-me um grande espanto descobrir que há por lá uma verdadeira onda de “nostalgia DDR”. Há em várias cidades “museus DDR” e “lojas DDR”, onde se pode ver como era a vida cotidiana na Alemanha Oriental e, inclusive, comprar produtos e souvenires daquela época. Em Leipzig, vi uma destas lojas em uma grande e moderno centro comercial, que curiosamente foi construído sobre uma área onde ocorreram, naquela cidade, os principais protestos contra o regime de Erich Hoenecker, em outubro de 1989, nas cercanias da Igreja Evangélica Reformada.  A Alemanha comunista, quem diria, foi parar num shopping center…
 
Como explicar, então, que os afluentes e livres alemães de hoje sintam certa nostalgia dos tempos autoritários do governo socialista? A antiga Alemanha Oriental, durante algum tempo, especialmente entre o fim dos anos sessenta e princípios dos anos setenta, conseguiu dar aos seus cidadãos um padrão de vida materialmente confortável e uma ilusória estabilidade econômica, pois, naquele regime, embora evidentemente não houvesse liberdade, quase todos tinham um emprego assegurado pelo Estado. Milhões de alemães viveram sua infância neste mundo de “baixo risco”, no qual a vida podia ser espartana, mas era muito mais simples e estável do que aquela dos dias que correm – e, especialmente, um mundo em que as relações humanas eram mais calorosas e próximas. Ou seja, um tempo mais amistoso, seguro e afetivo do que este em que vivemos hoje, marcado por sua complexidade, instabilidade, competição acirrada, hostilidade, insegurança e distanciamento pessoal.
 
Penso que algo semelhante se passou no contexto brasileiro. Para citar (corretamente) um historiador em voga, Daniel Aarão Reis Filho mostra, em sua obra “Ditadura e Democracia no Brasil”, como durante o regime militar uma camada significativa das classes médias e mesmo das camadas mais modestas da sociedade brasileira desfrutou de significativas oportunidades econômicas, especialmente aqueles que conseguiram empregos na extensa rede de empresas estatais criadas ou ampliadas naquele período nacionalista de “Brasil Grande” e milagre econômico. Isso, aliás, ocorreu com minha própria família, pois meu pai, um trabalhador de origens simples, progrediu muito de vida depois que foi contratado por uma companhia estadual de telecomunicações.  Para essas famílias, muito pouco afetadas pela repressão porque estavam mais preocupadas como sua mobilidade social do que com guerrilhas utópicas ou com a censura à imprensa, a primeira metade dos anos setenta foi um tempo de estabilidade e progresso.  E muitos cinquentões de hoje passaram sua infância neste tempo e associam esses “bons tempos” com a ordem e a disciplina do regime militar.
 
Não é, portanto, coincidência que essas pessoas de meia idade tenham se tornado nostálgicos reacionários, pois sempre houve uma linha de continuidade a unir nostalgia e reacionarismo, conforme observado tempos atrás por João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo, ao comentar o livro de Mark Lilla, The Shipwreck Mind: “Eis a essência do pensamento reacionário: a crença de que exista um passado –  próximo ou distante, pouco importa – em que as misérias do presente (pobreza, insegurança, competição etc.) não existiam. Isso é válido para políticos como Donald Trump ou Marine Le Pen. Todos eles comungam essa “mente naufragada”: a consciência aguda de que, algures na história, o reto caminho se perdeu. Radicalmente nostálgicos, eles são incapazes de pensar a modernidade, exceto para a condenar. Como Dom Quixote, eles lutam perpetuamente contra “a natureza do tempo””.
 
Mas, nesse campo da memória e do “afeto que se encerra”, há uma diferença crucial e gritante entre o Brasil e a Alemanha. Por mais que os museus DDR vivam lotados, e os alemães sintam até alguma nostalgia dos velhos tempos socialistas (como divertidamente nos mostra o filme Adeus, Lênin), nenhum político sério da Alemanha teria hoje o desplante de assumir publicamente aquele período como algo benfazejo – e se o fizesse seria motivo de chacota nacional. Estaria arruinado nas urnas. Mas aqui sabemos que isso não acontece. Muito pelo contrário.
 
Há várias explicações possíveis para essa diferença, mas a principal delas, ligada à dimensão psicológica (que é o que me interessa aqui), tem a ver com a forma de transição do estado autoritário para a democracia e com a maneira pela qual o público passou a lidar com a “memória coletiva” do passado.
 
Na Alemanha, o fim do estado socialista autoritário foi abrupto, radical, completo. Ninguém poderia ter previsto um ano antes que a Alemanha Oriental deixaria de existir (lembro de ter lido a seguinte previsão na revista norte-americana Newsweek, em 1988: “muitas gerações ainda se passarão até o que o muro de Berlim seja derrubado”…).  Portanto, a linha que demarcou o fim do antigo regime era clara, translúcida.  Além disto, todas as grandes figuras da DDR retiraram-se da vida pública inarredavelmente.
 
Aqui, a transição foi lenta, gradual e segura e ditada, em boa parte, pelo compasso do regime cadente. A própria Assembleia Nacional Constituinte foi convocada pela Emenda Constitucional 26 à Constituição de 1967, ou seja, sequer houve ruptura institucional do ponto de vista formal.  Como, ao final do regime, os instrumentos normativos do estado de exceção, especialmente os Atos Institucionais, foram sendo recolhidos paulatinamente, ainda no ocaso dos generais presidentes, não houve uma clara linha demarcatória a indicar o fim da ditadura.  Nem mesmo os historiadores concordam plenamente sobre qual foi a sua undécima hora. E, mais importante, muitos dos homens públicos que sustentaram o regime militar foram os fiadores do pacto de transição e continuaram, lépidos e fagueiros, até outro dia, dando as cartas na política nacional.
 
Em síntese, vale para nós brasileiros a lição tantas vezes citada do escritor americano Willian Faulkner, “o passado nunca está morto; ele nem é passado”.  Não será coincidência, pois, que praticamente não tenhamos aqui “museus da ditadura”, tanto do regime militar como do Estado Novo (com a rara exceção do louvável “Memorial da Resistência”, da Pinacoteca de São Paulo). Muito diferentemente do que acontece na Alemanha, seja em relação ao nazismo ou ao comunismo.
 
Por tudo isso, creio que é difícil para muitos, no Brasil, ver a ditadura militar como um mundo rechaçado, renegado e recusado. O eufemismo usado por Dias Toffoli para se referir a março de 1964 (“movimento” e não golpe de estado) diz muito a respeito desta disposição psicológica.
 
Concluindo, volto a Milan Kundera, para uma reflexão final sobre como as recorrências do passado podem afetar a memória coletiva e a historiografia:
 
“Se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, a historiografia francesa orgulhar-se-ia com certeza menos do seu Robespierre. Mas, como se refere a algo que nunca mais voltará, esses anos sangrentos reduzem-se hoje apenas a palavras, teorias, discussões, mais leves do que penas, algo que já não aterroriza ninguém. Há uma enorme diferença entre um Robespierre que apareceu uma única vez na história e um Robespierre que eternamente voltasse para cortar a cabeça aos franceses.”
 
Esperemos, pois, que nossos robespierres incorruptíveis não precisem voltar das cinzas para que possamos aprender as lições de um passado sinistro.


Jota / Cássio Casagrande – Doutor em Ciência Política, Professor de Direito Constitucional da graduação e mestrado (PPGDC) da Universidade Federal Fluminense - UFF. Procurador do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro.